31 março 2005

To englishate or not to englishate, that’s not the question

Antes de me dirigir ao Diogo e ao Tiago a propósito do Inglês no Ensino Básico não posso deixar de felicitar os eleitos de ontem para um novo mandato que se avizinha com novos desafios que certamente venceremos da melhor maneira.

Quanto ao Inglês (e basta olhar para o título do post do Diogo) a questão que se coloca não é o facto de haver ou não inglês neste ciclo escolar. De facto, a educação, como política central que deveria ser em todo e qualquer país desenvolvido (em especial na Europa), deve ser encarada seriamente e as medidas tomadas para o sector não o podem ser feitas de ânimo leve só porque aparentemente pretendem melhorar a qualidade do ensino.

O que é certo é que aprender uma segunda língua é fundamental (ninguém nega que na sociedade globalizada dos dias de hoje o inglês assume enorme destaque), a questão está em saber como deve este ser ensino ser perpetrado. O facto de se querer começar no básico acaba por ser irrelevante porque, tal como o Diogo diz e nisto eu concordo, existem matérias de grande importância (como o nosso português, a matemática e todas as outras matérias que aprendemos da 1ª à 4ª classe) que não são dadas da melhor maneira (culpa dos professores que já vêm mal preparados das Escolas Superiores de Educação, culpa dos pais que cada vez mais exigem que a escola assuma o seu papel de educadores (é admissível que se condenem os trabalhos de casa porque sobrecarregam a criança, porque não lhe deixam espaço para brincar, porque não deixam espaço para que ela viva a sua infância?), tendo cada vez menos a percepção de que a aprendizagem se faz principalmente na escola (para isso servem os professores), mas que sem um apoio familiar que incentive ao conhecimento, à curiosidade, ao estudo, que promova a disciplina, que não conteste a função de um professor na sala de aula o aluno, o futuro doutor ou engenheiro sairá da faculdade com um “canudo” na mão que de nada lhe vai valer?
O importante a debater nesta questão passa por uma reforma profundíssima no sistema de ensino português, que ao longo dos anos tem vindo a piorar. A escola (que começa logo no básico, porque é aí que damos os primeiros passos para a nossa vida escolar) deve ser uma instituição a respeitar, a preservar, o professor deve poder exercer a sua função de pedagogo sem interferência de terceiros, mas que se vê cada mais condicionado no exercício da sua profissão porque hoje em dia está muito em voga não querer “traumatizar” as crianças com más experiências escolares (que eu me lembre, e desculpem-me se estou errada, uma reprimenda, uma cópia de castigo, umas tabuadas a mais nunca fizeram mal a ninguém!)...

Não há dúvidas de que a medida é popular, agrada ao comum português poder orgulhosamente dizer que o seu filho ou filha aos 6 anos já é capaz de falar duas línguas! Mas e a qualidade com elas são leccionadas e aprendidas não conta, só conta a quantidade? Infelizmente parece que sim. Primeiro resolvem-se outras questões: colocação dos professores (quem não se lembra da enorme desorganização e do descontentamento que provocou a colocação de professores?), manuais universais que não tenham a duração de um ano (quem não contesta todos os anos os lucros das editoras de livros escolares que todos os anos publicam novos manuais quando os conteúdos programáticos se mantêm os mesmos?), programas curriculares adequados para cada ano escolar, em especial do português (quem não se lembra da polémica de retirar o estudo dos Lusíadas do 9º ano?) cuja leitura de obras literárias de todas as épocas históricas (desde a clássica à modernista, desde a prosa à poesia) é essencial à formação cultural do aluno), qualidade no ensino superior (exigindo dos futuros professores o máximo de competências por forma a que possam formar outros jovens que saibam ler e escrever sem erros, que sejam capazes de fazer pequenas contas de cabeça e que saibam pelo menos quem foi o primeiro rei de Portugal! (pronto Diogo a plantação do pinhal de Leiria poderia ser outro dos factos históricos a saber), promoção de actividades extracurriculares com qualidade que incentivem o aluno a uma formação para lá da exigida nos livros e nos programas curriculares e muitas outras medidas que deviam ser tomadas antes de se pensar em introduzir uma segunda língua (será que ninguém vai contestar que o menino ou a menina vai ter uma carga horária mais pesada e que, como tal, vai desperdiçar horas de brincadeira?).

E depois disto tudo ainda me vêm dizer que em 4 anos todas as escolas básicas terão o ensino do inglês? E as outras questões sra ministra, sr eng, também se resolverão em 4 anos?
Joana Mota