"Quando o caracter adoece e se dilui, é natural que o espírito de iniciativa dê lugar ao imitativo ou simiesco..é certo que a decadência de um povo lhe destrói a faculdade inventiva e iniciadora". Teixeira de Pascoaes in a Arte de Ser Português
Somos portugueses, logo somos decadentes!! Quase que poderia dizer tal afirmação, extrapolando o raciocínio desta nossa grande figura chamada Teixeira Pascoaes.
Ao lêr excertos da obra Arte de Ser Português, dei comigo a reflectir sobre a mentalidade dos portugueses e sobre o que nos move,o que nos impele num Mundo diferente de tempos idos, mas onde muita coisa permanece igual!! Aproveitando a deixa de Teixeira de Pascoaes, tenho de concordar com o que é por ele dito e aqui transcrevi!! Tenho a opinião que, nós portugueses somos realmente pouco dados à iniciativa, à opinião própria, ao dinamismo, etc. Sinceramente, entristece-me assistir a um povo, mais que inculto, despreocupado com a inovação e a opinião que deve ter nos mais variados assuntos e temáticas inerentes à nossa sociedade. Não conheço muitos países, mas nos poucos que visitei, não vejo nada assim!! Tanta astenia, tanta acomodação!! Vejo a cada dia, em cada um português, frémitos de comodismo, de inércia, de desinteresse!! Não me custa acreditar que os portugueses sejam dos cidadãos da União Europeia menos participativos na vida política e social do seu país! Talvez seja demasiado injusto, tendo em consideração a lógica de Teixeira de Pascoas, aventar com o discurso de que, como incessantemente copiamos o que se faz lá fora, como se tudo o que fosse feito no estrangeiro se traduzisse numa verdade dogmática, sem discussão, somos logo um povo decadente!! Mas o que em determinada altura me provocou esta reflexão foi constatar que, nem sempre imitámos os outros!! E quando é que isso aconteceu!!? A única vez que recordo isso ter acontecido de forma estratégica e funcionando num modelo de desígnio nacional ,foi durante o início da expansão marítima. aqui sim, não ficámos à espera da acção! Aqui provocamo-la.
No século XV, demos início a uma epopeia que iria marcar, indelevelmente a nossa história e, grandeza enquanto nação!! Mas lá está!1 fomos grandes porque soubemos agir e, não somente reagir!! Também parece indiscutivel que esta quimera foi proporcionada pela necessidade dos portugueses afirmarem a sua nação, de expandirem a fé cristã, mas sobretudo para fazer face às suas enormes dificuldades económicas.Não poderia concordar mais com a velha máxima, "a necessidade faz o engenho". Nesta altura necessitámos de fazer face às adversidades e, sem dúvida alguma, fizemo-lo. Depois desta iniciativa, desta aventura, medida com muita fé, mas também doseada com racionalismo, o que foi que nós portugueses fizemos!!? Aventuramo-nos por águas do Atlântico, numa navegação por cabotagem ,estabelecendo laços comerciais com povos autóctones, trocando produtos por si exportados, por mercadorias preciosas e semi-preciosas, aos olhos da Europa. Posto isto, que aconteceu!!? Portugal tornou-se num pólo de desenvolvimento, potificador de industrialização ou desenvolvimento humano e social!! Não. Em absoluto!! A imagem de Portugal de tempos idos, será decerto ,a imagem que temos do Portugal de hoje!! Mas já lá vamos. O que se seguiu à Era dos Descobrimentos foi algo de inimaginável!! Os lucros deste empreendimento magnânime revertiam quase em absoluto para monarcas e fidalgos que, em vez de apostarem no investimento e na reestrutuação das suas actividades económicas, deram primazia a outras áreas, à priori mais relevantes e condicentes para com o seu status social!!! Áreas estas referidas na época pombalina como a sumptuária. Atrever-me-ei a dizer: algo acessório!! Mais uma vez, surge diante de meus olhos sensação de dejá vu...Onde perguntam meus amigos!!? Na aparência. Repetidamente, incessantemente, somos um país que vive para a aparência. Queremos ser o que não somos. E o que não somos? Ricos, por exemplo.
Após esta inicial surpresa para os cofres, eis que surge novo tesouro. Desta vez as especiarias do Oriente. Logo construímos um edifício bem pomposo para receber estas novas jóias da coroa. A ele chamámos Casa da Índia. Nada mais, nada menos que um hall de entrada das especiarias orientais para toda a Europa. Aqui mercadores da região flamenga, do norte de Itália, dos grandes burgos alemães, se passeavam no intuito de fazer negócios chorudos. E o nosso Portugal, que fazia ele!!? Vendia pra gastar!!
Depois das especiarias ainda tivemos outro bónus!! O ouro do Brasil!! Aquele metal precioso que, nas mãos de trabalhadores países, caso dos nórdicos daria para fazer milagres...Nas nossas mãos apenas serviu pra fazer alguns monumentos e pagar as despesas do Estado, assim ,enriquecendo alguns agiotas que dele sempre se serviram.E depois!? Já não tínhamos muito por onde escolher!!
Para fazermos pouco e ganharmos algum, voltámo-nos para os resquícios da colonização!! África! Não duvido do esforço de Salazar para tornar o país desenvolvido. Mas no meio de tanta bajulação visionária, estranha-me não se ter apercebido de que, ou tornava o país auto-suficiente e com indústria moderna e competitiva, ou então passava-nos tudo ao lado novamente! Admito que fizemos muitos progressos no seu período. Mais que empreendendo obras públicas de grande envergadura e necessidade para o país, credibilizou a política, bastante enxovalhada no período da Iª República, demonstrando verdadeiro sentido de Estado, zelando estoicamente pelos seus interesses, falhando contudo, na visão a médio/longo prazo. No conjunto, tentou recuperar algo que já não se perpectivava mudar. A imagem dos políticos e, com ela a ideia de sua importância. Desenvolveu muito Angola, medianamente Guiné e Moçambique, esqueceu-se de São Tomé e, por último reduzia Cabo Verde ao exílio dos seus oponentes. Portugal!! teve algumas melhorias efectivamente. Algumas visíveis no imediato, como foram algumas obras públicas de grande envergadura, como disse anteriormente, outras a médio longo prazo, especialmente nas areas da educação, da cultura. Mas depois do 25 de abril de 1974, novos abutres pousaram num país pequeno, mas que até então pretendia mudar a mentalidade dos seus cidadãos, tacanhos, comodistas, zelosos do interesse próprio, em detrimento do interesse da nação.
O que é certo é que com a nossa entrada na CEE, em 1986, pelas mãos de personagem que, em meu entender por ser persona non grata, não lhe dou o privilégio da citação, Portugal tornou-se mais uma vez refém de si próprio!! Não da actual União Europeia, mas sim de si mesmo!! Porque meus amigos, se é certo que, a CEE quando foi criada, pressupunha conhecimento, harmonia e cooperação entre todos os seus membros. Hoje, quase 20 anos passados, os a UE não nos conhece, o que me intimida enquanto cidadão europeu, ou conhecendo-nos, se aproveita das nossas vicissitudes. Serei sincero! mais que vicissitudes, são vícios que nos alimentam o corpo desde há muito tempo, mas igualmente nos empobrecem a alma!! Cada vez mais entendo que, a salvação do nosso país, o nosso Portugal era a cessação dos tais afamados subsídios que nos alimentam o vício, nos consomem a alma e nos tiram a capacidade.
Deste Alentejo, quase profundo, quase ouvirão melodiosamente junto aos vossos ouvidos: deixem-nos crescer; deixem-nos aprender com os nossos erros, deixem-nos ser originais, pioneiros que soubemos ser, quando já nos julgavamos perdidos!! É sem dúvida uma crítica ao espírito presente nesta UE, mas sobretudo um grito de revolta pelos nossos políticos, pelos interesses obscuros, pelos compadrios, pelas cunhas, pelo comodismo, pela inércia... enfim!! Pela forma como encaramos a vida!!
Desculpem-me se usei mal a expressão "pequena reflexão"! Mas as palavras são como as cerejas, já alguém disse!! Talvez tenha puxado um grande novelo de lã, sem saber se o consigo enlaçar novamente!!? Tenho muito gosto em suscitar algum debate, venha do vosso blog ou não!! De qualquer forma devo desde já adiantar que sou um vosso leitor. Assíduo e atento!!! Oxalá a JP cresça com base no espírito crítico que sinto em vós, mas sobretudo na liberdade de opinião/expressão e na modéstia que têm para admitir quando se enganaram!! Sinto na vossa equipa a presença de bom senso, ponderação, sensibilidade e respeito pela diferença!!
Bem Hajam
Frederico Nunes de Carvalho